lunes, 22 de marzo de 2010

solidão



Solidão

Sinto-me só, só no sentido oco da palavra. O que é um paradoxo, pois nascemos sós, e isso não deveria ter o peso da tristeza, teria que ser como um estado, destes que aprendemos na escola - sólido, líquido, gasoso e .... solitário, corriqueiro, como o ato de respirar. Não deveríamos temer tanto a tal visitante. Aliás, se assim o fosse, talvez nem existiria essa velha frase - Sinto-me só.
A propósito, solidão vem do latim solus, da doutrina filosófica chamada Solipsismo – segundo a qual a única realidade do mundo é o próprio eu. Estar só é ter que lidar com este eu. Acompanhar-se, estar presente sem escapatórias.
Também não existiria o desespero do homem, a buscar qualquer coisa pela frente para se apegar, para não enfrentar o rosto no espelho e a própria e solitária sombra na parede. Então, busca-se sem muito exigência, um amor não recompensador, uma companhia sem somas, um grupo de grilos falantes, uma novelinha, unas saídas mata tédio e por ai vai.

Estar só na sociedade é não ter sido aceito por outrem e seu coletivo. Sei que também pode ser por opção, mas para a maioria, solidão é para eremitas, anti-sociais e monges. O resto que cair no balaio vira aquela peça não desejada, em constante promoção. É um castigo de fim de vida - tá vendo, fulano é difícil... vai morrer só.
Se as pessoas agissem com tanta competência para trabalhar pelo meio ambiente ou por causas sociais, como se esforçam para fugirem da solidão, o mundo seria outro.
Por outro lado, existem outros tipos de solidão que são crônicas, a da falta de comunicação, da fala sem sentido, da sabedoria sem discípulos, do amor proibido, do tempo ido, da imagem cristalizada pelo outro, do estar acompanhado se sentindo só.

Mas a solidão também tem peso e esse peso quem dá é a gente, ditamos o valor, o tamanho e o tempero. Ela pode transbordar em um caldeirão ou apenas mostrar dois dedinhos num copo de vidro. A diferença mais significativa é a medida da paz que sentimos por dentro, falo do equilíbrio interior para se estar só e ao mesmo tempo, se sentir bem na sustentável leveza do ser. Talvez este seja um estado muito avançado para nós, meros humanos a provar tanta imperfeição, ingrediente natural da nossa massa, o que nos faz belos também, diga-se de passagem. Mas há felizardos que alcançam pelo menos alguns décimos dessa porcentagem. Pois bem, solidão no corpo é carência, na mente é distração com a essência do embrião.
Outras vezes, se sentir só é sentir-se no centro de um mundo cego, silencioso e surdo. Em um abandono absurdo por nós mesmos e a tal velha culpa do mundo, essa senhora tomando chá. Mas não podemos deixar de pensar que o chá pode vir sem açúcar e estar bom, ou com duas ou três colherinhas, e estar perfeito, o segredo é dosar.

O que importa é o que se faz com a solidão, seja ela momentânea ou eterna, deve ser saudável ao máximo, leve e natural. Devemos desfrutá-la, aproveitar à sua companhia, oferecer-lhe uma dança, acompanhar-se com uma boa música, com páginas de livros, pensamentos livres e sãos, lembranças boas em afazeres simples como lavar pratos, pensar onde enxugar o perdão, um cômodo descanso, um tempo de criar e ser criatura, um canto de cura, um ponto de potência e momentos de elevação.

Acho que o sentido oco na palavra virou tutano.
Venha amiga, pode entrar, vamos brincar com o osso.

1 comentario:

  1. Oi Inaiá

    Viajando pela net encontrei seu blog e gostei do que li. Na realidade tenho seu livro... Se me permite concordar: a solidão é um chá feito com um pouco do que somos nós... assim o sabor/calor/cor varia e cada um que descubra/aprove/recuse o sabor de si! Parabéns pela reflexão.Excelente. Abração

    Rosangela Lyra

    ResponderEliminar