martes, 11 de mayo de 2010

...

No estado de insônia,
crio,
quem dera
criasse no estado de consciência insone.

Bicho de Estimação

Ah! Meu bicho de estimação
essa dor de cão
a saudade do meu irmão
em que passo a mão
no corpo, no focinho, na orelha
balançando o rabinho
não posso mais alimentar esse bichinho.

lunes, 22 de marzo de 2010

Exercício das Cores - Azul



Azul

Existência humana no azul dos séculos; A terra poluída é menos azul; Noa miragem natural dos olhos em liberdade, sabê-lo as nuances, sê-lo em silêncios, olhar para dentro de si é sempre um olhar azul; Na proa da embarcação de mares; o mergulho de gaivotas frenéticas nas enseadas; Tudo que se pode sentir em um respiro profundo; sob as nossas cabeças, a casa do ar, o abrigo das águás, de Deus, o abajour das estrelas e dos ombros do mundo, soberano sob todas as outras cores, entre o dedo indicador na prova da direção dos alisios; Enquanto o corpo nasce, cresce e alimenta a terra tornando-se cinza; Azul - ciclos dos tolos em círculos e dos sábios das linhas retas; Inefável na inspiração dos poetas, onde tomba a sombra dos viajantes da vida; Onde beija a testa da menina de saia branca que dança.

Exercício das Cores- Amarelo


Amarelo-bronze no sinos das igrejas reluzem nas praças malvas; A cor das aves selvagens, a pelugem das araras; O velho trem na paisagem de trilhos abandonados crescem flores amarelas ao seu redor; os homens-formigas a semear o doiro das moedas; o esplendor dos ipês nas serras; Amarantas as mangas dos meninos mestiços penduradas nos ombros por redes amarelas; O ferrugem nos barcos ancorados de Itacimirim se misturam com verdes algas; Ama as nuances do laranja nos lençóis dos fins das tardes, se enfeita no espelho dos horizontes nos mares e dança com a areia enganando as ondas; Amarelo nas mulheres rezadeiras das 18 horas; Ave-Maria dourada e límpida nas orações; Amarelas são as folhas de outono como as cinzas da fênix; No calor do verão a abraçar a pele do mundo e dos bichos; Amarelo-perfume dos crisântemos nos cemitérios; Na boca das abelhas produzindo o mel; Na parede bege da casa silenciosa onde passeiam lagartixas , aranhas e memória da infância; Ah! Amarela é a esperança no sangue nas veias dos homens; Do rude ao barroco, amarelo; O capim-dourado nos brincos das meninas vaidosas; As mãos macias do dia despertando-nos sorrateiras; Amarelo é o silêncio dos mosteiros e estábulos, nos trigais, nas pausas sábias das palavras do meu pai; Na beleza-cobre da minha mãe; Amarela é a música etérea de Alex Mesquita; A energia do movimento à procura dos passos nas estepes do tempo; Na palha idosa dos coqueirais da Bahia; Na chama de Bramma em todas as coisas lançadas na terra, o sândalo desdourando enquanto pinga a paz no vitral, êi-lo que jaz nos lábios da noite para dar o lugar ao azul sereno.

solidão



Solidão

Sinto-me só, só no sentido oco da palavra. O que é um paradoxo, pois nascemos sós, e isso não deveria ter o peso da tristeza, teria que ser como um estado, destes que aprendemos na escola - sólido, líquido, gasoso e .... solitário, corriqueiro, como o ato de respirar. Não deveríamos temer tanto a tal visitante. Aliás, se assim o fosse, talvez nem existiria essa velha frase - Sinto-me só.
A propósito, solidão vem do latim solus, da doutrina filosófica chamada Solipsismo – segundo a qual a única realidade do mundo é o próprio eu. Estar só é ter que lidar com este eu. Acompanhar-se, estar presente sem escapatórias.
Também não existiria o desespero do homem, a buscar qualquer coisa pela frente para se apegar, para não enfrentar o rosto no espelho e a própria e solitária sombra na parede. Então, busca-se sem muito exigência, um amor não recompensador, uma companhia sem somas, um grupo de grilos falantes, uma novelinha, unas saídas mata tédio e por ai vai.

Estar só na sociedade é não ter sido aceito por outrem e seu coletivo. Sei que também pode ser por opção, mas para a maioria, solidão é para eremitas, anti-sociais e monges. O resto que cair no balaio vira aquela peça não desejada, em constante promoção. É um castigo de fim de vida - tá vendo, fulano é difícil... vai morrer só.
Se as pessoas agissem com tanta competência para trabalhar pelo meio ambiente ou por causas sociais, como se esforçam para fugirem da solidão, o mundo seria outro.
Por outro lado, existem outros tipos de solidão que são crônicas, a da falta de comunicação, da fala sem sentido, da sabedoria sem discípulos, do amor proibido, do tempo ido, da imagem cristalizada pelo outro, do estar acompanhado se sentindo só.

Mas a solidão também tem peso e esse peso quem dá é a gente, ditamos o valor, o tamanho e o tempero. Ela pode transbordar em um caldeirão ou apenas mostrar dois dedinhos num copo de vidro. A diferença mais significativa é a medida da paz que sentimos por dentro, falo do equilíbrio interior para se estar só e ao mesmo tempo, se sentir bem na sustentável leveza do ser. Talvez este seja um estado muito avançado para nós, meros humanos a provar tanta imperfeição, ingrediente natural da nossa massa, o que nos faz belos também, diga-se de passagem. Mas há felizardos que alcançam pelo menos alguns décimos dessa porcentagem. Pois bem, solidão no corpo é carência, na mente é distração com a essência do embrião.
Outras vezes, se sentir só é sentir-se no centro de um mundo cego, silencioso e surdo. Em um abandono absurdo por nós mesmos e a tal velha culpa do mundo, essa senhora tomando chá. Mas não podemos deixar de pensar que o chá pode vir sem açúcar e estar bom, ou com duas ou três colherinhas, e estar perfeito, o segredo é dosar.

O que importa é o que se faz com a solidão, seja ela momentânea ou eterna, deve ser saudável ao máximo, leve e natural. Devemos desfrutá-la, aproveitar à sua companhia, oferecer-lhe uma dança, acompanhar-se com uma boa música, com páginas de livros, pensamentos livres e sãos, lembranças boas em afazeres simples como lavar pratos, pensar onde enxugar o perdão, um cômodo descanso, um tempo de criar e ser criatura, um canto de cura, um ponto de potência e momentos de elevação.

Acho que o sentido oco na palavra virou tutano.
Venha amiga, pode entrar, vamos brincar com o osso.